Tudo que você precisa saber para combater a ferrugem asiática

Ferrugem asiática em planta de soja. Foto: Shutterstock.

Boas práticas agrícolas como o vazio sanitário da soja atrasam a ocorrência da doença durante a safra e também desfavorecem a sobrevivência de fungos resistentes aos fungicidas

Quando perguntado sobre doenças que prejudicam a soja, com certeza o produtor tem uma resposta na ponta da língua: ferrugem asiática. Causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, a ferrugem é a doença que mais ameaça o desenvolvimento das plantações. Não por acaso, estima-se que os agricultores brasileiros desembolsaram R$ 8,3 bilhões para a aplicação de fungicidas na safra 2016/17, sendo que 96% desse investimento foi destinado ao controle da ferrugem asiática. A estimativa foi apresentada por uma pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, em parceria com a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef).

Em uma simulação do estudo, ficou ainda mais evidente o impacto econômico da doença. Se os produtores não aplicassem fungicidas, o cenário seria trágico: a produção de soja cairia 30% e a receita bruta do produtor seria 13,9% inferior, com perdas totais de R$ 11,7 bilhões. Como consequência, a cadeia brasileira da soja teria um prejuízo de R$ 3,37 bilhões, em vez do lucro de R$ 8,32 bilhões registrado pelo setor. “Desde sua detecção no Brasil, que ocorreu ao final da safra 2000/2001, ela é considerada a doença mais importante para a soja na maior parte do país, devido aos danos e perdas que pode causar. A exceção fica para algumas regiões nos estados do Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí e Roraima, onde a severidade desta doença não é tão alta”, afirma Rodrigo Guerzoni, engenheiro agrônomo e gerente de desenvolvimento inicial de fungicidas da Bayer.

 

Como acabar com a ferrugem asiática?

A doença pode ser bastante severa, provocando perdas que variam de 30% a 90% na produtividade, podendo chegar até 100% em campos de produção de sementes, segundo Guerzoni. “Em campos de produção de sementes, se a doença for mal controlada, o produtor não consegue atender às exigências de padronização e classificação das sementes, sendo obrigado a direcionar a colheita, ainda quando possível, para a comercialização na forma de grãos”, diz ele. Embora os danos causados pela ferrugem asiática pesem muito no bolso do agricultor, ainda falta conscientização sobre a adoção de boas práticas agrícolas para conter o seu avanço, como a calendarização da semeadura da soja e, principalmente, o respeito ao vazio sanitário da soja.

 

Vazio sanitário da soja

Os produtores ainda se questionam se vale a pena respeitar o período obrigatório de pelo menos 60 dias sem plantas de soja vivas no campo. Para sanar essa dúvida, Guerzoni explica como o vazio sanitário da soja é uma prática fundamental para minimizar a incidência da doença. “O fungo causador da ferrugem-asiática é biotrófico, o que significa que precisa de hospedeiro vivo para se desenvolver e multiplicar. Dessa forma, ao eliminarmos as plantas de soja na entressafra, interrompemos o ciclo do fungo, retardando a incidência da doença durante o período da safra de soja seguinte”, afirma o gerente da Bayer. O período determinado pelo vazio sanitário leva em consideração as características do ciclo de vida do fungo, para garantir que a área fique de fato livre da doença.

E não apenas isso, o vazio sanitário é uma medida capaz de reduzir a sobrevivência de fungos resistentes e, com isso, proteger a eficiência dos fungicidas disponíveis no mercado. “A soja que permanece na entressafra pode servir de hospedeira para que populações de fungos menos sensíveis a determinados grupos químicos de fungicidas se multipliquem, oferecendo ao produtor maior dificuldade no controle da doença”, alerta Guerzoni.

 

Conheça o inimigo

É importante conhecer o patógeno para melhorar o manejo. “Quanto ao ciclo da doença, ele se inicia com a disseminação dos esporos que foram produzidos nas plantas que serviram como hospedeiras. Os esporos são disseminados pelo vento e se depositam sobre as folhas das plantas de soja. Caso as condições climáticas estejam favoráveis, com temperaturas entre 18oC e 26oC, molhamento foliar de pelo menos seis horas (ideal de 12 a 14 horas), os esporos iniciam sua germinação e o fungo penetra na folha diretamente rompendo a epiderme, colonizando os tecidos da mesma”, diz Guerzoni.

De acordo com Guerzoni, em condições ótimas de temperatura, ao redor de cinco dias após a penetração do fungo é possível visualizar os primeiros sintomas, que são os pontos escurecidos vistos mais facilmente olhando a folha contra um fundo claro. “Com mais uns quatro a seis dias (9 a 11 dias após a infecção), as urédias (saliências que se assemelham a um pequeno vulcão) podem ser vistas e novos esporos começam a ser liberados. Cada urédia permanece produzindo esporos por aproximadamente 21 dias. Esses esporos vão iniciar novas infecções na mesma lavoura ou vão, através do vento, alcançar lavouras mais distantes. Quando chega o fim do ciclo da cultura o fungo passa a sobreviver nas plantas voluntárias ou outros hospedeiros”, explica Guerzoni.

Uma importante informação epidemiológica da ferrugem é que a mesma apresenta vários ciclos durante o ciclo da cultura da soja. “A ferrugem da soja é uma doença policíclica. Isso significa que plantas de soja infectadas durante o ciclo da cultura servem de fonte de inóculo para novas infecções no mesmo ciclo. É um fungo extremamente agressivo que produz uma quantidade muito grande de esporos, os quais se dispersam a grandes distâncias pelo vento”, diz Guerzoni. Por essa razão, muitos especialistas alertam que o vazio sanitário deve ser respeitado coletivamente. Se um produtor desrespeita a medida, ele coloca toda a região produtora em situação de risco. “Quando existe uma fonte de inóculo primária da doença durante a entressafra, maior a probabilidade de se ter uma infecção mais precoce durante a safra”, explica Guerzoni.

 

Plantas guaxas ou tigueras

A sobrevivência de plantas voluntárias de soja, mais conhecidas como guaxas ou tigueras, representam uma grande ameaça para o setor. “No processo de colheita mecanizada da soja, existe uma perda natural de grãos. Esses grãos que caem no solo, ao encontrarem condições favoráveis de umidade germinam, dando origem a plantas de soja que servirão de hospedeiro para o fungo da ferrugem da soja durante a entressafra. A recomendação é que essa soja seja dessecada ou eliminada mecanicamente”, diz Guerzoni. Infelizmente, os especialistas apontam que existem produtores subestimando o impacto negativo da soja tiguera e não realizam o controle dessas plantas hospedeiras de forma adequada.

 

Evite a resistência do fungo

Além disso, agricultores que defendem o cultivo de soja safrinha estão levantando uma bandeira perigosa para a sustentabilidade da sojicultura brasileira, ampliando a necessidade de pulverizações, e desta forma favorecendo a pressão de seleção exercida sobre o fungo, o que provoca resistência. “É importante entender que o fungo tem se adaptado de forma mais rápida do que a indústria está sendo capaz de desenvolver e registrar novos produtos. Precisa ficar bem claro que o desenvolvimento e o registro de novas moléculas é um processo longo.  Desta forma, as tecnologias precisam ter longevidade para que o sistema produtivo da soja seja sustentável”, diz Guerzoni.

A Bayer mantém um robusto programa de monitoramento da resistência de fungos aos fungicidas desde 2003 e desenvolve parcerias com instituições de pesquisa dos Estados Unidos, Alemanha, França e Brasil, sendo um dos destaques a pesquisa que envolve o sequenciamento do genoma da soja. “A Bayer é uma empresa de inovação e está sempre trabalhando para trazer algo novo. O sequenciamento do genoma da ferrugem da soja abre inúmeras possibilidades, entre elas estão a identificação de novos sítios de ação para o desenvolvimento de fungicidas, e a identificação de fatores de patogenicidade do fungo que auxiliam no desenvolvimento de cultivares de soja mais resistentes à doença”, conta o gerente da Bayer Rodrigo Guerzoni.

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COPYRIGHT © REDE AGRO S.A - Última atualização: 20/08/2019 (1.0.3141)